A Nova Política

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Por Rodrigo Carvalho

Na crista da onda contestatória que invadiu a política brasileira desde 2013, quando as ruas começaram a se manifestar contra a hegemonia cultural e política da esquerda, surgiu o conceito “nova política” nos comentários políticos. Mas quais são as características da nova política? Como e onde ela se manifesta? E o mais importante, quais são as consequências para aqueles que ousam ignorá-la?

Já em 2014, a Rede de Sustentabilidade, o partido da então candidata à presidência Marina Silva, divulgou um manifesto intitulado “A favor da nova política” através do qual o partido repudiava a declaração de apoio da própria candidata ao tucano Aécio Neves que disputava o segundo turno contra a reeleição da petista Dilma Rousseff. O manifesto denunciou “O centro de poder decadente, conservador e estagnado na velha polarização PT x PSDB (…)” que teria enclausurado “(…) o efervescente desejo de mudanças manifestado nas jornadas de junho de 2013 e reafirmado pelo posicionamento de aproximadamente dois terços do eleitorado brasileiro”.

O manifesto identificou ainda: uma “crise de representação” em relação aos partidos, o “ (…) uso descarado dos instrumentos de poder político, institucional, midiático e econômico para cooptar, coagir, pressionar e manipular a vontade popular (…)”, o “ (…) velho padrão do fisiologismo e do patrimonialismo travestido de ‘garantia da governabilidade’(…)”, “ (…) a cultura da velha política, da corrupção, da promoção dos interesses do mercado em detrimento dos direitos sociais, da servidão à lei do mais forte; usam e abusam da gestão inescrupulosa, do aparelhamento do estado e do poder público para o favorecimento privado, cooptando e sendo cooptados por interesses escusos.” O texto conclui que “Para mantermos a coerência e a qualificação de nossa intervenção política, só há um caminho: continuar afirmando a necessidade de uma nova e de uma outra política”.

Alguns aspectos essenciais da revolta popular que ficaram ausentes no manifesto são a aliança espúria do PT com os tiranos do Foro de São Paulo, o ataque constante aos valores tradicionais, e os índices absurdos de violência e criminalidade que massacram o povo há décadas. Entretanto, excetuando-se alguns velhos cacoetes esquerdistas e ambientalistas, os autores do manifesto conseguiram, de fato, identificar boa parte dos aspectos da “velha política” que deveriam ser corrigidos para que se pudesse satisfazer os anseios populares expressos nas ruas, nas redes sociais, nas empresas e nos lares de um país mergulhado em uma profunda crise política, econômica e social.

Ou seja, a “nova política” deveria ser definida negativamente em relação aos aspectos perversos da “velha política”: o fim da crise de representação, onde os partidos deverão concretamente identificar e agir em prol dos reais interesses de seu eleitorado, sem rodeios, sem tergiversar; o fim da manipulação da vontade popular pela mídia tradicional, sendo que aquela passa a ser diretamente expressa através das mídias sociais e das manifestações de rua; o fim do patrimonialismo e fisiologismo, popularmente conhecido como o “toma lá, dá cá” ou descrito eufemisticamente como “presidencialismo de coalizão”; o fim da leniência com a corrupção, através da incorporação dos agentes da “Operação Lava Jato” nas estruturas da Justiça Federal, da aprovação de legislação penal mais severa e da exigência de lisura no comportamento do Presidente, seus ministros e os integrantes dos demais poderes da república.

Apesar da identificação acertada de boa parte dos novos imperativos políticos, alcançada por esse pequeno setor da esquerda autora do manifesto “A favor da nova política”, o restante do estamento esquerdista preferiu ignorá-los solenemente. A própria Marina Silva apoiou Aécio em 2014 e Haddad em 2018. O preço que pagaram por esse erro foi devastador. Após a última flatulência eleitoral produzida pelo PT com a vitória de Dilma em 2014, veio o debacle. O ano de 2016 nos trouxe o derretimento quase total do Partido dos Trabalhadores nos municípios e o impeachment de Dilma; em 2018 houve a prisão de Lula, uma vasta renovação dos governadores e do legislativo federal e a vitória acachapante de Jair Messias Bolsonaro que, por sua vez, segue à risca os preceitos das novas exigências. Hoje, em 2019, ignora-se a nova política por conta própria e risco.

Rodrigo Carvalho é formado em Direito pela Universidade em Friburgo, Suíça.
Professor e empresário em Santa Catarina.

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