Bolsonaro não está jogando xadrez e sim Go

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Em uma democracia, as divergências e o debates devem ser incentivados, uma vez que fazem bem para o crescimento da cidadania. Discordar em muitos pontos, e concordar nos principais valores básicos de interesse da sociedade brasileira contribui para o alcance do consenso necessário às decisões em curso no País. A mídia, na condição de Quarto Poder, desempenha um papel importante na consolidação democrática e no aperfeiçoamento das instituições, sendo a liberdade de expressão um pilar aos valores liberais. No entanto, esses mesmo meios de comunicação poderosos são, em sua maioria, de propriedade privada, o que implica a atuação de atores privados mediando interesses privados, assim como interesses públicos.

Recentemente, a imprensa inteira defendeu um ministro exonerado, que nada mais era que um “síndico” do Palácio do Planalto, durante episódio envolvendo o Presidente da República. Por que toda a mídia praticamente ficou de um lado só? Se até o momento tem se mostrado desfavorável às indicações de Bolsonaro, qual seria o motivo de empreender a defesa de um ministro exonerado? Há jornalistas, que, por interesse pessoal, se alinharam à narrativa conservadora, com o intuito de ganhar a confiança daqueles que hoje estão no poder. O mesmo ocorreu com diversos políticos e empresários infiltrados na onda conservadora para não perderem cargos e posições importantes. A cegueira ideológica da mídia, em especial daqueles que cobrem a agenda presidencial, é tão grande que não percebe o vexame que passa ao agir de forma contraditória. Criticavam o ministro, até o momento de o Presidente pedir sua cabeça: aí passaram a defendê-lo. O escândalo em si não foi mais pautado, somente as conversas nas redes sociais entre todos os envolvidos, em uma tentativa vã de sensacionalizar uma crise inventada dentro do governo.

Os áudios e o conteúdo das mensagens trocadas não apresentaram nada grave – exceto pelo Presidente admitir que a emissora Globo é sua inimiga, o que não pode ser considerado uma novidade. É visível a tentativa do governo e dos seus aliados de tocar a agenda política e econômica adiante, mas o fato é que esses vazamentos e alguma falta de habilidade diplomática fazem um assunto menor persistir por mais um pouco na terra dos tupiniquins. Fica clara a maneira sem precedentes na história dos meios e comunicação de minar a popularidade do governo e a força de seus defensores a cada episódio como esse. Perde-se tempo com questões irrelevantes, tempo precioso que deveria ser usado para o esclarecimento de assuntos do interesse de todos. Perde-se o foco.

É estranho quando jornalistas, blogueiros e simpatizantes do mantra “Lula Livre” elogiam os trabalhos jornalísticos da imprensa considerada aliada da direita, nas figuras de Felipe Moura Brasil e Augusto Nunes, por exemplo. Quando o filho do Vice-Presidente foi promovido no Banco do Brasil, houve críticas e acusações de que a promoção não teve o “timing” certo. Mas Felipe teve o “timing” certo para aceitar uma promoção no seu local de trabalho, depois que ele e Augusto Nunes fizeram a defesa do ex-ministro de pouca importância para a estrutura governamental. Ou seja, além dos interesses privados dos conglomerados midiáticos, existem também os interesses dos profissionais que atuam no setor, em competição aos interesses públicos.

O centro das atenções dos que disputam o poder está focado no Presidente Jair Bolsonaro, no ministro da Justiça, Sérgio Moro, e no ministro da Fazenda, Paulo Guedes, que terão toda a proteção dos movimentos que foram às ruas e estão vigilantes quanto às promessas e ao comando das pautas nacionais. Já o Congresso, que está desvinculado de Bolsonaro, tem que atender às exigências populares de seus eleitores. Esses parlamentares que chegaram para renovar o Legislativo foram eleitos com as pautas das ruas, como o liberalismo econômico, a segurança pública, o combate à corrupção, o fim do estatuto do desarmamento, a manutenção dos costumes e da família, o estado mínimo… Qualquer “resfriado” no governo federal não vai deixar o Congresso “gripado”, porque hoje o povo vai exigir o comprometimento dos políticos com suas propostas originárias das urnas.

A época das gravações telefônicas feitas no topo dos postes de iluminação pública ou de pequenos aparelhos “plantados” no gabinete Presidencial, conforme ocorrido com João Batista Figueiredo e José Sarney, essa época passou. Michel Temer foi gravado por Joesley Batista por meio de um pequeno gravador que levava no bolso. Agora, é muito mais simples gravar alguém, como fez o ex-secretário geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno. Basta usar apenas um celular. Ainda podem ter outros “infiltrados” no Planalto. As gravações não derrubaram a República, muito menos o governo no presidente. Essas “crises” vão ser matérias diárias na pauta da imprensa que mendiga verbas governamentais.

Para superar a parcialidade da imprensa e a relação conturbada com os jornalistas, não é suficiente que Bolsonaro seja um exímio enxadrista, mas um mestre em Go, jogo de tabuleiro conhecido por ser o mais antigo e complexo do mundo. É um jogo estratégico de informação perfeita. A sua origem remonta à antiga China, há mais de 4 mil anos. Somente sábios conseguem vencer. Somente com habilidade, perseverança, desempenho sob adversidade, respeito, inteligência tática e disciplina, Bolsonaro conseguirá atingir suas metas traçadas em campanha. Qual vai ser o próximo lance?

“Ao longo desta década, ficou evidente que a imprensa não pode colocar-se acima de qualquer questionamento, ela não é infalível. Mas ela não pode ser cobrada pelo governo, neste caso a cobrança soaria como ameaça. Só a sociedade pode oferecer o contra-poder ao poder da imprensa” – jornalista Alberto Dines

* Policial federal, Carlos Arouck é formado em Direito e Administração de Empresas, instrutor de cursos na área de proteção, defesa e vigilância, consultor de cenários políticos e de segurança pública, membro ativo de grupos ligados aos movimentos de rua.

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Carlos Arouck
Agente de Polícia Federal - Bacharel em Direito - Licenciado em Administração de Empresas - Foi Instrutor Academia Nacional de Polícia - Palestrante na área de Segurança Pública - Fundador do Movimento Brasil Futuro (MBF) - Consultor de Cenários Políticos - Consultor de Estratégia de Segurança Pública

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