Bom jornalismo versus Fake news

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Por Simone Salles

Notícias falsas sempre existiram. Quando um rumor é publicado como verdade nasce o boato. No passado, na pressa para dar um furo antes dos colegas, se um jornalista passasse uma informação errada, estava cometendo uma “barriga”. Sinônimo de vergonha e retratação. Entre os colegas responsáveis por realizar a cobertura de eventos e temas diversos, era difícil encontrar alguém que nunca tivesse sido vítima de uma “barrigada”: bastava um zero a mais ou a menos e o valor publicado estaria muito acima ou abaixo da realidade. É verdade que há alguns anos atrás a checagem não contava com a rapidez da internet, mas nada atenua o fato de o repórter não ter checado suficientemente sua matéria e ter cometido um erro por desatenção, que ficaria para sempre em seu currículo.

O boato tem efeito dominó perigoso. Quantos famosos já não ressuscitaram depois de mortos pela mídia? E a venda ou falência de empresas que resultou em alta ou queda na bolsa, fruto de uma notícia desmentida logo a seguir… Com o advento das mídias sociais e a disponibilidade de mais recursos para averiguação dos fatos, a situação das notícias falsas, ao invés de melhorar, conseguiu piorar. Surgiram, com força, as fake news, fenômeno que não deve ser confundido com jornalismo, porque as informações são fabricadas sem passar pelos critérios de noticiabilidade para ser considerada uma notícia e, assim, ser publicada. São produzidas de forma intencional, de má fé assumida e com intuito de enganar, de modo a convencer as pessoas pela opção de um determinado ponto de vista. Existem, inclusive, ferramentas que permitem aprimorar a arte da enganação, como a mais recente ameaça, os deep fakes, quando é feita uma montagem quase perfeita de algo que não é verdadeiro, mas parece ser.

O pior é quando representantes do povo, eleitos para a defesa de interesses públicos, como o acesso à informação, são acusados por suposto esquema de criação de perfis falsos e produção de notícias inverídicas, e ainda com dinheiro do contribuinte. Esse tipo de indústria de fake news cria desconfiança e consequente perda de credibilidade jornalística, em especial para a grande imprensa. Constitui uma prática antidemocrática e que fere os princípios do bom jornalismo: o de informar, confundido com o de emitir uma opinião; o de apurar, não o de reproduzir o que outros meios estão espalhando; e o de ouvir todos os envolvidos; no lugar de priorizar um determinado lado.

Mais grave ainda é quando um político com formação em jornalismo resolve usar sua equipe de gabinete para criar e disseminar ataques contra adversários políticos, segundo denúncias em apuração. Em época de fake news, os jornalistas têm o dever de redobrar os cuidados, de primar pela precisão, de se conscientizarem da importância de checar várias vezes a informação, tarefa basilar no cenário atual. É esse esforço que contribui para desmascarar práticas de desinformação que já não estão apenas limitadas ao campo da política. Documentos deliberadamente falsos são publicados online com o objetivo de manipular os consumidores. Não se trata de notícia falsa e sim de notícia falsificada. Toda vez que uma notícia sem exatidão atinge os leitores, a obrigação dos jornalistas é de corrigi-la da forma mais clara e efetiva possível. Corrigir é obrigatório, um ato de justiça e as erratas devem ser feitas com presteza.

Hoje, há mais pessoas na redação sentadas à frente de um computador apurando fatos do que nas ruas. Com o computador, é possível escrever um texto, editar um vídeo, gravar o aúdio para uma reportagem e disponibilizar o conteúdo na rede. A Internet coloca nas mãos dos jornalistas a possibilidade de obter rapidamente a informação necessária para complementar suas matérias. A praticidade tem seu preço, uma vez que padroniza o conteúdo por meio do uso das mesmas fontes. A convergência das mídias nem sempre significa maior qualidade do produto informativo. Os ciberjornalistas do século XXI logo compreenderam que filtrar a informação na rede seria uma das suas funções mais relevantes.

Para aqueles que apontam rumo a um possível enfraquecimento do papel do jornalista, a onda de fake news aumentou a demanda pelo bom profissional: além de criador de conteúdo, o jornalista passa a ser também gestor da superabundância virtual, capaz de analisar e hierarquizar a informação significativa para um público cada vez mais exigente e vigilante. A vacina mais eficaz contra a desinformação fruto de fake news é a prática jornalística sustentada pela ética profissional e pelo respeito ao interesse público. Como afirma o professor e doutor em Comunicação Manuel Pinto, “É com profissionais criteriosos, exigentes na investigação e sensíveis ao bem comum que o jornalismo pode sair dos impasses em que se encontra”.

*Jornalista, Mestre em Comunicação Pública e Política.

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Carlos Arouck
Agente de Polícia Federal - Bacharel em Direito - Licenciado em Administração de Empresas - Foi Instrutor Academia Nacional de Polícia - Palestrante na área de Segurança Pública - Fundador do Movimento Brasil Futuro (MBF) - Consultor de Cenários Políticos - Consultor de Estratégia de Segurança Pública

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