Carnaval sem riscos – os foliões cariocas merecem

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Por Simone Salles*

A abertura oficial do Carnaval no Rio de Janeiro ocorreu este ano no dia 12 de janeiro,
excepcionalmente mais cedo. Houve a apresentação do Bloco da Favorita, shows com Sandra de Sá, Toni Garrido, Preta Gil, DJs, MCs e a eleição final do Rei Momo e da Rainha do carnaval carioca, também presentes na Praia de Copacabana. Após o fim do evento, reinou a confusão, com correria, quebra-quebra, arrastão na areia, confronto com a polícia, bombas de gás lacrimogêneo, danos aos prédios situados na área, sujeira, vitrines de lojas vandalizadas…

A polêmica se instalou. Os órgãos institucionais do estado não estavam em acordo. O Ministério Público do Rio de Janeiro queria a suspensão da atração, mas o Tribunal de Justiça estadual indeferiu. A Polícia Militar foi, a princípio, contrária à realização da festa, liberada depois do atendimento de exigências pendentes. Por outro lado, os organizadores de blocos consideram que os requisitos necessários para conseguirem autorização inviabilizam sua existência, por serem excessivos. A RioTur, de sua parte, alterou procedimentos com relação ao prazo de entrega de documentos de cadastro dos blocos.

É importante que essa abertura deixe lições. A confusão ocorrida no momento da dispersão, no cartão postal da cidade, assusta. As redes sociais mostraram foliões reclamando de roubo de celulares, ambulantes jogando o que viam pela frente nos guardas municipais, motoristas de táxi e aplicativos se queixando do trânsito, metrô com interrupções no serviço. Ambulâncias não conseguiram passar para prestar atendimento a moradores do bairro, em sua maioria idosos. Grupos de moradores nas mídias digitais alertam que não querem que a reputação do bairro seja denegrida, em especial junto aos turistas e lembram que as imagens de agressões, lixo e medo que circularam na internet rodaram o país e o mundo.

Nota do Fórum Carioca de Blocos de Rua afirmou que os megashows com artistas de renome não representam a essência do Carnaval carioca e que não podem atrapalhar a festa tradicional dos blocos compostos por cariocas comuns. Segundo a nota, “Nem tudo que se diz Carnaval é Carnaval. Há uma distância profunda entre carnaval de rua tradicional, composto de blocos feitos por foliões, que ocupam as ruas de forma alegre e afetiva. São pessoas comprometidas com a cidade e com a cultura carioca”.

A AmaCopa (Associação de Moradores de Copacabana) e a Sociedade Amigos de Copacabana tentaram sem sucesso que a abertura do Carnaval não fosse feita no bairro. Justificaram que o Bloco das Favoritas não tem relação histórica nem cultural com Copacabana e que existe um lugar específico para os desfiles – o Sambódromo. Houve, ainda, questionamentos sobre a exclusão dos blocos cariocas da abertura oficial do Carnaval.

O Réveillon teve recorde de turistas. O calor lota as praias. E o Carnaval? Embora um evento de grande porte como a abertura do dia 12 possa passar a impressão de que o carnaval de rua está revitalizado como nunca, o que se percebe é o contrário, o distanciamento da espontaneidade das ruas, a apropriação da festa popular por profissionais da indústria do entretenimento. Pelo menos, ficou claro que o planejamento terá que ser aperfeiçoado, faltando tão poucos dias para a data, sob risco de ocorrer o que o Ministério Público do estado elencou na ação contrária à festa de abertura – não ser possível garantir a segurança pública e a integridade física das pessoas e das instalações. Afinal, os cariocas e os turistas merecem uma festa descontraída e segura, sem preocupações que cabem aos entes públicos estaduais e municipais.

*Jornalista, Mestre em Comunicação Pública e Política

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