Meus doze dias acampado em frente ao Congresso

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Sou um cidadão comum que se cansou de assistir a tudo que acontece em termos de manifestações políticas somente dentro de casa. Curioso com o que estava se desenrolando na capital do País bem em frente a um dos mais conhecidos ícones do País, as torres do Congresso Nacional, resolvi deixar a comodidade do lar e ver de perto o que acontecia. Peguei o carro, estacionei pelas redondezas, caminhei até um grupo de pessoas em meio a várias barracas e disparei:

– Olá, vim porque gostaria de ajudar.

O acampamento

A formação do acampamento contou com a participação de vários grupos favoráveis ao impeachment da presidente Dilma. A finalidade de terem permanecido tanto tempo ali, cerca de um mês, era pressionar os parlamentares a darem início a esse processo de cassação. Como o presidente do Senado se manifestou contrário à ideia, o gramado na frente do prédio principal foi dividido ao meio. Cabe explicar que o gramado na frente do Congresso fica sob jurisdição das duas Casas Legislativas, Câmara e Senado, ou seja, sob os cuidados da Polícia Legislativa. Na metade do lado da Câmara, as barracas podiam ser montadas, na metade do lado do Senado, não. Faixas podiam ser colocadas, no entanto. Uma enorme barraca ficou estrategicamente posicionada ao fundo, onde havia amplo espaço para guardar provisões, trocar ideias e receber visitantes.

Eu comecei a frequentar o acampamento como brasileiro desiludido com a política, mas desejoso por contribuir para a construção de um País melhor, sem, inclusive, pertencer a nenhum dos grupos presentes no gramado (Movimento Brasil Livre, Resistência Popular, Vem pra Rua, Banda Loka, Avança Brasil, Fórum de Brasília, Brasil contra a corrupção, Revoltados Online, Movimento Brasil, Limpa Brasil, Corrente do Bem, GBN Geopolítica Brasil, Brasil Futuro entre outros). Aos poucos fui me sentindo mais à vontade. Mesmo tendo sido bem recebido de um modo geral, só com o tempo comecei a compreender melhor o que realmente era necessário ali: disposição e boa vontade. Havia tantas pessoas diferentes dividindo o mesmo ideal que passei a me sentir mais forte.

Os movimentos

Os movimentos que mais me chamaram a atenção foram o MBL, O Revoltados Online e o MBR. Cada um com suas características bem distintas, mas um objetivo comum: a destituição da Presidente e o fim da corrupção estruturada pelo PT.

O MBL tomou posse do acampamento como se fosse obra sua, com certo autoritarismo. Usavam braceletes coloridos para poderem identificar seus membros e armaram uma barraca para se reunirem bem longe da barraca grande. Não se misturavam e chegavam a ser hostis com os demais. A grande estrela era o Kim Kataguiri, acompanhado do Renan Antônio. A postura deles lembrou muito a dos militantes do PT na época ideológica da construção do partido anos atrás.

O Revoltados Online, por meio do Marcelo Reis, teve a ideia de montar a grande barraca, símbolo da resistência dos acampados. Seu modo mais enérgico e os vídeos que gravava diariamente atraíram a atenção de gente de todo o Brasil para a causa dos acampados. Ao contrário do que aconteceu junto ao MBL, o grupo dos Revoltados Online me receberam bem e sem desconfianças quando um dia resolvi aparecer para conhecer de perto o que se passava bem em frente ao Legislativo federal. Expliquei minha decisão de querer ajudar e aos poucos fui aumentando as horas que permanecia junto ao grupo.

O MBR era o movimento mais tranquilo. Seu coordenador Ricardo explicou que a finalidade maior do movimento era o protesto, por meio de faixas e bonecos. Eles criaram o Pixuleco. Ricardo, com seu jeito diplomático, conseguiu bom trânsito entre todos os grupos presentes no gramado, assim como junto às autoridades locais. Sua premissa era sempre avisar os órgãos responsáveis pela segurança antes de executar qualquer iniciativa pública.

Dia a dia

A rotina dos acampados era simples. Acordavam cedo, por causa da claridade e do enorme calor que reinou na maior parte dos dias. Havia reuniões diárias com as forças de segurança, uma vez que os acampados eram revistados todos os dias; a preparação de refeições simples (sanduíches, café), panfletagem nos arredores, como na Rodoviária do Plano Piloto, além de encontros entre as lidernaças diversas para a tomada de deicsões. Uma delas foi a que repercutiu mais na imprensa e irritou os parlamentares da base aliadas, o acorrentamento de manifestantes no Salão Verde.

Mais de mil pessoas visitavam a estrutura montada diariamente. Muitos ofereciam alimentos, água, pão… Outros levavam os acampados em seus carros para fazer compras

em mercado, tomar banho no Parque da Cidade, comprar remédio na farmácia ou pegar recém chegados na rodoviária e no aeroporto.

Nas terças e quartas-feiras, em especial, quando o movimento no Congresso aumentava por conta das sessões deliberativas, o acampamento era mais visitado e fotografado. Food trucks apareceram no dia da análise do veto ao reajuste dos servidores do Judiciário e fizeram a festa dos acampados.

À noite, nós mesmos realizávamos a vistoria de todas as barracas, para nossa própria segurança. Nos revezávamos em turnos para que alguém sempre estivesse acordado no caso de alguma emergência. As duas polícias estavam sempre presentes, a PM e a Polícia Legislativa. Havia em geral churrasco, com carne fornecida por empresários de Brasília. Ao redor da churrasqueira, essa era a hora da descontração e de se conhecer um pouco mais sobre a vida de cada um.

Algumas autoridades foram recebidas na grande barraca, mas não vou citar nomes. Os índios que faziam um protesto contra nova regra para demarcação de terras também marcaram presença. A procuradora Beatriz Kicis, o ativista Eder Borges, e João Lima, da TV Revolta, trouxeram visibilidade para os acampados, ao postarem vídeos na rede explicando tudo que ali acontecia, já que a grande imprensa ignorava a existência desse movimento inédito. Quando alguma notícia saía na mídia, era para confundir o grupo inteiro com os intervencionistas que se encontravam do outro lado da pista na área conhecida como praça das bandeiras, sob jurisdição do Governo do DF, ou seja, sob os cuidados da Polícia Militar.

Intervencionistas

O segmento dos intervencionistas era basicamente formado por pessoas que perderam a esperança nas instituições constituídas. Como não acreditam mais nas autoridades e políticos eleitos, na visão deles o impeachment não adiantaria nada. Preferem uma intervenção militar que retiraria “todas as lideranças” do poder e definiriam uma data de novas eleições para o executivo e legislativo federais. Eles já estavam acampados há cerca de oito meses. Há ainda um grande grupo de intervencionistas que defendem a intervenção popular no lugar da militar. Esses aceitam o impeachment, pois acreditam que a saída de Dilma e do PT do governo, além da punição dos responsáveis pelos crimes ocorridos já seria um grande começo para a moralização do Brasil. Eles chegaram ao acampamento na mesma época que os demais grupos do outro lado da pista. Tentaram se integrar ficando no gramado em frente ao Congresso, mas

foram expulsos pelo pessoal do MBL, na figura do Renan e resolveram acampar junto aos intervencionistas “militares”. Os dois grupos querem o mesmo, mudança, um pela via militar e o outro pelo próprio povo brasileiro. Por não serem protegidos pelas forças de segurança, foram alvo fácil da raiva dos grupos petistas e por diversas vezes sofreram agressões verbais e físicas.

Símbolos

Não poderia deixar de citar meu leal companheiro nesses dias cansativos, mas recompensadores: o “Federal”, boneco que ficava 24 horas segurando a Bandeira do Brasil, vigilante, aquele capaz de representar os verdadeiros anseios da população, um símbolo inspirador de confiança nas mudanças que viriam a partir da mobilização e do engajamento cidadão.

O que mais pertubou os políticos petistas e de esquerdas foi a presença da grande barraca marcando o território dos acampados. Essa estrutura foi, sem dúvida, o símbolo maio de todo o acampamento.Na tribuna do Plenário, muitos deputados discursaram contra os acampados e sua enorme barraca, considerada uma afronta ao Poder instituído pelo PT. Pediram reiteradas vezes a retirada de todos do gramado do Congresso e insuflaram a população contra nós. Na concepção dos deputados de esquerda, somente os movimentos sociais a eles ligados são legítimos. Apenas suas reivindicações são justas. Cansamos de sermos chamados de coxinhas, facistas, golpistas e outros termos de baixo calão.

Invasões

Houve quatro tentativas de invasão com o intuito de retirar todos dali. Para isso, os movimentos sociais de domínio do PT foram utilizados. Na primeira tentativa, orquestrada pelo líder do PT na Câmara, deputado Sibá Machado, líder do PT na Câmara, o MTST foi usado. Cerca de cem pessoas chegaram retirando faixas e destruindo barracas, além de agredirem fisicamente alguns acampados , principalmente os jovens do MBL. Sibá Machado havia ameaçado em pleno Plenário botar os acampados pra correr, além de chamar todos de “bando de vagabundos”. Isso aconteceu em reposta à coragem do grupo que estendeu faixas com os dizeres “Fora Dilma” na galeria da Câmara.

A segunda tentativa, foi por meio do MST, que usaram a mesma estratégia: chegar sem anúncio, e assustar os acampados. Como não houve reação de nossa parte, apesar das provocações feitas, os xingamentos e ameaças, o pessoal do MST resolveu recuar, após inclusive, uma briga entre eles mesmos.

O fracasso fez com que a esquerda elaborasse uma estrategia de uso de menores para um possível confronto com os acampados. Em torno de quatro mil secundaristas foram levados à Brasília sob pretexto de realização de um congresso em defesa da democracia, que teria seu ponto alto com uma grande passeata rumo ao Congresso contra o impeachment da presidenta Dilma. A ideia era criar uma situação de confronto entre as duas partes: jovens com sua maioria menor de idade e acampados.

Ciente de que poderia haver uma situação de risco, fui conversar com o comandante do sexto batalhão sobre o fato e pedi reforço policial para evitar qualquer confusão envolvendo menores. Comentei que entraria na justiça caso algo acontecesse e as autoridades se omitissem. No dia, os policiais realizaram um cordão de isolamento ao redor da área do gramado e os secundaristas passaram próximos mas sem contato. A tentativa de usar menores frustou-se.

Diante disso, a quarta tentativa veio a seguir, quando o governo do GDF mandou retirar as forças policiais do nosso perímetro. Isso era o sinal verde para que um confronto estivesse eminente. Pela primeira vez a marcha nacional das mulheres negras aconteceria no Distrito Federal. O objetivo é reunir o máximo de organizações de mulheres negras, assim como outras entidades do movimento negro e mobilizar essas pessoas em homenagem aos ancestrais e em defesa da cidadania plena das negras brasileiras.

Ora, ao invés disso, a marcha se dirigiu ao Congresso e as mulheres negras foram amparadas por um grupo de cem militantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) , que invadiram o acampamento agredindo homens e mulheres, destruíram tudo o que viam pela frente, inclusive as faixas de protesto. Esse foi um momento de grande tensão e medo, por falta de proteção policial e pela intensidade da violência aplicada, característica conhecida dos manifestantes da CUT. Em alguns minutos montaram quarenta barracas na mesma área onde nos encontrávamos.

A Constituição proíbe em seu artigo quinto, inciso dezesseis , que dois grupos antagônicos manifestem em um mesmo lugar. É como colocar a torcida do Corínthias e do Palmeiras juntas em um campeonato! O resultado foram três disparos feitos por um policial civil do GDF, que não apareceu na mídia e outros quatro por um policial civil do Maranhão que estava no acampamento dos intervencionistas, que teve sua imagem amplamente divulgada. O protesto não teve nada de pacífico. Ficam as perguntas: o que as mulheres foram fazer ali, já sabendo do acampamento, tanto nosso quanto dos intervencionistas? O que esse policial do GDF fazia armado ali no meio dos invasores da CUT?

Os intervencionistas acusaram os integrantes da marcha de destruírem barracas e o boneco inflável gigante do general Antonio Hamilton Martins Mourão. Houve uso de usar spray de pimenta pela polícia para dispersar a confusão. O spray também atingiu jornalistas e deputados que foram ao protesto para averiguar o que estava acontecendo, entre eles, o deputado do PT Paulo Pimenta. Os integrantes da CUT também tentaram arrancar a faixa estendida no gramado pedindo o impeachment, instalada por movimentos acampados no local há quase um mês, mas foram contidos pela Polícia Militar e Legislativa. A confusão tumultuou a sessão do Congresso e foi destacada em vários discursos de parlamentares.

Ao final, o plano de invasão foi consumado com êxito. Os provocadores da CUT, quase todos homens, começaram a impôr a tática do medo e de provocações aos acampados, na expectativa de uma reação. A indiferença os irritava, porque claramente a massa de manobra da CUT não queria ficar ali parada, estavam recém chegados e cheios de energia, enquanto nós já estávamos cansados e assustados com as ameaças, especialmente as mulheres.

Solicitamos uma vistoria pela Polícia Legislativa a eles também , já que nós erámos, como já disse, sempre vistoriados. Os policiais encontraram rojões, um tijolo de maconha e bebidas alcoólicas. O consumo de álcool estava proibido para nós e não poderia ser liberado para eles.

Mais tarde, o deputado Paulo Pimenta apareceu com o deputado Vicentinho no gramado e os dois se reuniram com o pessoal da CUT. Depois de um tempo, o povo da CUT deu um grande “grito de guerra” e começaram a retirar as barracas montadas.

O Presidente da Câmara convocou os líderes dos movimentos para uma reunião, quando informou que daria um prazo de 48 horas para a retirada de todos da frente do gramado do Congresso, inclusive dos intervencionistas localizados na área pertencente ao GDF, o que fora acordado com o governador do DF.

Após a reunião, compreendemos que os dois deputados foram alertar os acampados da CUT sobre a saída já decidida pelos presidentes da Câmara e do Senado. Ficaram sabendo de tudo antes de nós.

Na hora marcada, 19 horas, as forças policiais, juntamente com os Bombeiros, foram executar a decisão de retirada. A maioria já tinha saído e desmontado a estrutura principal do acampamento, exceto por um pequeno número de integrantes do MBL que se deitou nas barracas e foram

retirados pela Polícia Legislativa. Eles se sentaram no gramado, em protesto, mas tiveram barracas, colchões, alimentos e outros objetos retirados, com a ajuda do Serviço de Limpeza Urbana do GDF. A ação foi pacífica.

Na parte mais acima, onde ficaram os membros intervencionistas, a Polícia Militar, com aproximadamente 40 homens, fez um cordão de choque. Os próprios manifestantes desmontaram as barracas. Não houve confronto físico, mas os acampados saíram sob protesto verbal, chamando os policiais de “comunistas” e “bolivarianos”.

Por último, o símbolo da resistência popular foi desmontado, a grande barraca.

Conclusão

Ainda bem que não houve nenhuma tragédia. Parte disso deveu-se ao comportamento pacífico e ordeiro dos acampados. A responsabilidade pela segurança por vezes não foi assumida por nenhuma parte competente: as autoridades do GDF afirmavam que aquela área ficava sob os cuidados da Polícia Legislativa. A Polícia Legislativa, por sua vez, dizia que a chegada de pessoas oriundas de movimentos sociais seria encargo da PM. Como toda manifestação é avisada com antecedência às autoridades, presume-se que o governo do DF estaria agindo em conluio com essas pessoas, contra os acampados.

O intento principal não foi alcançado naquele momento, mas o caminho para o impeachment com certeza ali se estruturou, ganhou força e visibilidade. Questão de tempo para ser atingido, pouco tempo. A coragem dos acampados, o ideal compartilhado, o sentimento de indignação perante tantos desmandos, corrupção, e a política do toma-lá-dá-cá encheu os corações daqueles brasileiros que entraram para a História do Brasil como o grupo que resistiu por muitos dias ao poder instituído e fez daquele gramado um verdadeiro palco de reivindicção popular e democrática. Que a vontade do povo seja respeitada!

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