A reeleição dos aflitos

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A corrida pelo foro privilegiado começou. Com o avanço das investigações da Lava Jato e os seus desdobramentos em novas operações, políticos corruptos devem usar as eleições de 2018 para evitar que sejam condenados e presos. A disputa eleitoral será marcada por uma “corrida ao foro”. Hoje, no Congresso Nacional, mais de noventa por cento dos congressistas vão tentar a reeleição, o mais alto índice da sua história. Provavelmente nos parlamentos estaduais ocorra o mesmo. O que quer dizer isso? Uma verdadeira fuga das condenações feitas pela Lava Jato e uma tentativa de fazer a impunidade vencer. Além do fato de que, se eleitos, esses políticos podem legislar pela  anistia aos presos pela operação ou até mesmo pela extinção da Lava Jato. O objetivo desses candidatos é simplesmente permitir que a corrupção sistêmica, ainda em pleno vapor, continue. Nada mais, nada menos que a manutenção dos “coronéis da política”, seus partidos e interesses. O apego ao poder e às mordomias move esse tipo de candidato, desinteressado em compreender as reivindicações dos cidadãos cansados de não serem ouvidos.

O prazo das coligações acabaram neste final de semana. Quando as coligações partidárias foram criadas, o intuito era possibilitar a união de associações com matrizes ideológicas afins. No entanto, a proliferação de partidos transformou as alianças genuínas em um balcão de negócios. Partidos se juntam por motivos torpes, como ganhar mais tempo nas campanhas de rádio e de televisão, ou conseguir vagas em secretarias estaduais/distritais, estatais e ministérios. Como estamos no Brasil, existem muitas brechas na Lei que serão utilizadas até o início da propaganda eleitoral e da oficialização dos pré-candidatos pelos tribunais eleitorais. Tudo que hoje é oficial pode ser mudado. As coligações são verdadeiras saladas ideológicas e programáticas, por vezes sem qualquer coerência. Os golpistas estão unidos com os  quadrilheiros. Exigir “coerência” em um país de contradições pode ser muito para alguns políticos. As coligações partidárias, sem qualquer viés ideológico ou coerência, se transformam em armadilhas, em aberrações que confundem o eleitor, unindo propostas antagônicas em alguns estados, enquanto em outros esses mesmos partidos se apresentam como opositores.

Há, ainda, a difícil situação em que se encontram os pequenos partidos que surgem com perspectiva de renovação. Se não fizerem coligações, dificilmente conseguirão eleger algum nome. Ao contrário do que muitos eleitores pensam, sendo o número de candidatos à reeleição maior, a renovação tende a ser menor que nos pleitos anteriores. Como os atuais deputados dispõem de várias vantagens em relação aos que estão fora de mandato, cabe ao próprio eleitor evitar transferir votos para a corja que ocupou os principais espaços de poder e terminou sua gestão com escândalos e condenações. O desgaste dos que já possuem mandato pode, sim, diminuir o número de votos, mas não será suficiente para evitar a reeleição. É preciso acompanhar de perto cada candidato, suas propostas, com o intuito de votar melhor em outubro. Também uma verdadeira reforma política que beneficie o povo e não a classe política se faz urgente e deve começar com os eleitos em 2018. Se as lideranças partidárias não conseguem perceber com bom senso essa necessidade popular e se movimentar para promover mudanças, a descrença e a decepção dos cidadãos em seus políticos vai continuar e aumentar. O povo que não se sente representado tem força suficiente para, pelo menos, começar a mudar o quadro de descrença atual.  Basta apostar na valorização do voto consciente, no combate à corrupção eleitoral e na ética no exercício das funções públicas, pressupostos que dependem de uma boa escolha.

Termino citando Winston Churchill: “ A diferença entre um estadista e um demagogo é que este decide pensando nas próximas eleições, enquanto aquele decide pensando nas próximas gerações”.

Policial federal, Carlos Arouck é formado em Direito e Administração de Empresas, instrutor de cursos na área de proteção, defesa e vigilância, consultor de cenários políticos e de segurança pública, membro ativo de grupos ligados aos movimentos de rua.

 

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